sábado, 12 de maio de 2007

Meu Tipo Inesquecível

Hoje de manhã, estava lembrando do meu avô, e suas frases de efeito, amargas e cheias de sabedoria. Eu era garoto e meu avô era um homem solitário. Não me lembro de em algum momento ter perguntado por minha avó, porque à medida que fui me entendendo por gente, sempre vi meu avô sozinho.
Na verdade ele me parecia gostar de ser só. Talvez o fato de vê-lo organizado, metódico e auto-suficiente, parecesse uma prova cabal desse seu gosto.
Hoje eu vejo a vida com outros olhos, desconfio que ninguém goste da solidão. Vejo no fato de ninguém da família fazer qualquer comentário sobre minha avó, um indício de um profundo respeito por sua dor de viúvo, desde jovem.
Meu avô um dia resolveu dar a volta ao mundo. Naquele tempo ainda se dava grande valor em dar a volta ao mundo. Dava-se a volta ao mundo de navio. Meu avô foi no “Júlio César”, e eu fui a bordo, me despedir dele, junto com meu pai.
Quando voltou de viagem, havia um sentimento, compartilhado até por um menino como eu, de que meu avô, aos sessenta anos, havia vivido tudo que um homem pode viver, pois “até a volta ao mundo ele havia dado”, diziam todos.
Passou-se um tempo e ele conheceu Dona Sofia. Uma egípcia, de pele clara, falando com sotaque francês, que já havia enfrentado muitas guerras e viajado o mundo todo. Não sei precisar quantos anos ela tinha. Talvez sessenta como ele. Talvez menos.
O fato é que eles namoravam escondidos, não sei bem por quê. No início, ela apenas visitava o apartamento dele na Rua Alzira Brandão, e as filhas, minhas tias, começaram a desconfiar, após alguns flagrantes, que algo estivesse mudando.
Eu também percebi que algo estava mudando, pois meu avô mudara a forma de ser carinhoso comigo. Agora me abraçava constantemente, passava a mão em meus cabelos e suas frases de efeito deixaram de ser tão amargas. Passaram a destilar beleza e alegria.
Se eu tivesse uns trinta anos a mais, perceberia logo que ele estava encantado.
O tempo passou e, sem fazer força, Dona Sofia conquistou primeiro a mim, que no início não me aproximava. Depois meu pai, o caçula. E depois minhas três tias.
Quando meu avô adoeceu, cuidou dele como se fôra sua esposa toda a vida. E quando ele faleceu, ela foi embora do Brasil, dizendo não poder viver aqui sem ele.
Dona Sofia nunca me disse qualquer frase de efeito. Nem mesmo um dito popular. Apenas me ensinou a beleza que pode haver no amor. Em qualquer época da vida.
Ela é o meu tipo inesquecível.

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