Crônica premiada no recente Concurso Internacional de Primavera promovido pela Editora AG.
1º lugar na categoria Crônicas - Fernando Goldman
Vinha chegando o meu aniversário, e com ele ia acabar o período de inferno astral, que dura um mês. Não acredito em horóscopos, é verdade, mas acredito em inferno astral, assim como acredito em uma porção de coisas que não fazem o menor sentido eu acreditar.
De repente, a lembrança do aniversário me fez perceber que a validade de minha carteira de motorista estava acabando.
Não era a primeira renovação da carta de habilitação, mas confesso ainda me sentir meio ludibriado com tal atividade. Explico. Quando tirei a carteira pela primeira vez, o instrutor da auto-escola vivia repetindo valer à pena todo aquele esforço, porque, era uma vez só na vida.
Mudaram as leis e como é comum acontecer, o tal do direito adquirido não foi considerado. Tudo bem! O que custa de cinco em cinco anos, próximo do meu aniversário, fazer um novo exame de vista?
Eu tenho uma filosofia de vida. Ver sempre o lado positivo das coisas. Pois aqui havia um lado bem positivo. As novas carteiras de motorista, por terem retrato e citarem o número da identidade e do CPF, poderiam ser o único documento a ser portado. O resto poderia ficar guardado em casa, a salvo dos possíveis assaltos.
Pois foi o que adotei. Na minha carteira de dinheiro, apenas a carta de motorista, o cartão do banco e eventualmente, mas muito eventualmente, algum dinheiro.
Muito bem! Se minha carta de motorista estava vencendo, era preciso renová-la. Onde? Minha filha, que está tirando sua primeira habilitação, me explicou que eu teria de usar o telefone e fazer um novo tipo de prova.
De um modo geral, acho o senso de humor uma característica positiva no ser humano, mas todo exagero deve ser evitado.
- Como é possível um órgão público só atender pelo telefone? Perguntei indignado.
- Não disse só pelo telefone, respondeu exaltada. Pode marcar pela Internet também.
Agora já não estava tão certo de se tratar de uma questão de senso de humor.
Prestativa como é, ela me entregou um papel de anotação, com os telefones do DETRAN e, com olhar desafiador entregou-me também um livrinho para estudar, insistindo na idéia de uma tal prova que eu teria de fazer.
Achei melhor não esticar a conversa em favor da paz domiciliar. Como pode ser possível, depois de mais de trinta anos dirigindo, só agora lembrarem que faltou eu fazer uma prova. Se a moda pega, minha professora de biologia do 2º grau, que vivia tentando me reprovar, vai me chamar no Pedro II de novo, para algum exame que ela esqueceu de me aplicar.
Mas vamos lá, talvez o errado seja eu em insistir na tola idéia de que as coisas devam ter pelo menos um pouco de lógica. Afinal, liguei para o DETRAN.Aliás, liguei várias vezes e sempre uma mensagem falava sobre todos os postos ocupados.Enfim, uma voz feminina e bem juvenil me atendeu explicando não haver vagas disponíveis no posto da Barra da Tijuca antes do dia cinco. Expliquei-lhe que minha carteira vencia no dia três e ela me deu a notícia de que minha carteira "era válida por trinta dias após o vencimento".
Não sei se é minha idade, se a lógica mudou ou se nem existe mais, o fato é que era difícil para mim aceitar que alguma coisa continuasse válida após o término do seu prazo de validade. Ela não se deixou abalar pelos meus ingênuos princípios lógicos e pacientemente me explicou que era a lei e que se eu queria “agendar” o dia cinco, devia ligar no dia quatro.
Tentei convencê-la a marcarmos logo para o dia cinco, afinal já havíamos estabelecido contato. Não houve jeito. Ela realmente estava muito bem treinada para não se deixar levar por nada que parecesse lógico.
De qualquer forma deve-se reconhecer ser muito engenhosa essa estratégia de transferir a fila do posto do DETRAN para o telefone. Se você vai ao posto, ele está sempre vazio, denotando uma eficiência extraordinária. Isto deve ter sido bolado por um daqueles burocratas que vivem com a mesa limpa, mesmo quando todo mundo sabe que não dão conta de seu serviço de jeito algum.
Finalmente consegui agendar minha ida ao DETRAN. Encontrei o posto vazio, já que os outros possíveis usuários deviam estar a dias no telefone ou na Internet, tentando agendar sua ida para lá.
Como dissera minha filha, teria realmente de fazer uma prova, mas não naquela hora. Você já deve estar adivinhando. Teria de marcá-la por telefone.Diante de minha reclamação, o atendente disse-me candidamente que se eu preferisse poderia usar a Internet. Tentei novamente argumentar sobre a urgência de obter nova habilitação, pois a minha já estava vencida, e ouvi outra vez o argumento inquestionável de que ela "era válida por trinta dias após o vencimento".
Fiz a tal prova, na qual felizmente fui aprovado e devo pegar minha nova habilitação na semana que vem. No final deu tudo certo, ou quase tudo, pois no dia seguinte à prova fui embarcar em um vôo para o Recife e ao mostrar o documento de identidade que portava, minha carteira de habilitação como sempre, fui informado que a mesma estava vencida .Tentei argumentar com a moça do check-in com aquilo que eu mesmo já começava a acreditar: A habilitação "era válida por trinta dias após o vencimento". Não adiantou. Tive que pegar um táxi e ir buscar minha identidade original em casa.
sábado, 12 de maio de 2007
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Um comentário:
Fernando, adorei reler sua crônica! Bastante merecedora do primeiro lugar!!!!!!!!! Beijos cheios de admiração!
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